O cerco jurídico em 17 atos contra a administração de Danilo Barbosa Rezende
Levantamento exclusivo da Folha Três Marias disseca a cronologia e o teor de cada uma das investigações ativas no Ministério Público. Mais de 70% dos inquéritos foram instaurados nos últimos meses, indicando uma aceleração nas apurações sobre a gestão municipal.
O cenário político de Três Marias enfrenta uma pressão jurídica sem precedentes. Uma certidão oficial emitida pela Procuradoria-Geral de Justiça de Minas Gerais detalha que o prefeito Danilo Barbosa Rezende acumula 17 procedimentos extrajudiciais ativos. A reportagem da Folha Três Marias analisou os documentos e apresenta agora um raio-x completo de cada suspeita, organizadas pela data em que o Ministério Público decidiu formalizar as investigações.
A Cronologia das Investigações
1. Promoção Pessoal com Verba Pública (18/07/2025 – Proc. 0238004/2025-25) A primeira investigação desta lista foca no descumprimento do princípio da impessoalidade. O MP apura se o prefeito utilizou a estrutura de comunicação da prefeitura e eventos custeados pela cidade para exaltar sua própria imagem, o que pode configurar improbidade administrativa.
2. Fraudes na Manutenção da Frota (27/08/2025 – Proc. 0264208/2025-35) Este procedimento investiga possíveis irregularidades na compra de peças e na contratação de serviços de oficina para os veículos oficiais do município. A suspeita é de faturamento indevido e falta de controle sobre os materiais adquiridos.
3. Irregularidades no Lixo e Limpeza Urbana (02/09/2025 – Proc. 0228034/2025-40) Um dos contratos mais caros de qualquer prefeitura. Aqui, os promotores apuram falhas e possíveis direcionamentos em licitações destinadas ao manejo de resíduos sólidos e serviços de limpeza de ruas.
4. Uso Particular de Bens e Servidores (23/09/2025 – Proc. 0267846/2025-70) Uma denúncia grave de desvio de finalidade. O MP investiga se máquinas da prefeitura e servidores públicos foram deslocados para realizar serviços em propriedades privadas ou em benefício de interesses particulares do grupo político.
5. Explosão de Gastos com Publicidade (06/11/2025 – Proc. 0258102/2025-94) A investigação foca no aumento considerado injustificado dos gastos com propaganda institucional no final de 2025, buscando entender se a verba foi usada para informar a população ou para fins políticos.
6. Consultoria Técnica “Sem Licitação” (09/12/2025 – Proc. 0317316/2025-70) Apura a contratação direta de serviços de consultoria. O MP questiona por que não houve licitação e se os serviços não poderiam ser realizados pelo próprio corpo técnico da prefeitura.
7. O Caso da Indenização de R$ 181 mil (09/12/2025 – Proc. 0317541/2025-09) Talvez o caso de maior impacto popular. Investiga o pagamento de exatos R$ 181.065,44 à servidora Cássia Magali Nacif Gonçalves sob o rótulo de “verba indenizatória”. O órgão apura a origem dessa dívida e a legalidade desse pagamento vultoso.
8. Salário para Agente Afastado (15/12/2025 – Proc. 0319101/2025-84) Investiga se um agente político do município continuou recebendo remuneração integral mesmo estando oficialmente afastado de suas atividades profissionais, sem justificativa legal.
9. Falhas na Guarda Municipal (15/12/2025 – Proc. 0320317/2025-38) Foca em irregularidades no processo de implantação da Guarda Municipal e apura se vigias patrimoniais estão sendo obrigados a exercer funções que não são de sua competência (desvio de função).
10. Contratação da JP Rações (16/01/2026 – Proc. 0258057/2025-48) Apura atos de improbidade administrativa em contratos firmados entre a prefeitura e a empresa JP Rações e Utilidades Ltda, buscando identificar possíveis favorecimentos.
11. Aluguel de Máquinas e Parentesco (16/01/2026 – Proc. 0264252/2025-11) Investiga o pregão para locação de máquinas pesadas. O MP aponta suspeitas de que a empresa vencedora ou participante pertença a parentes de servidores que trabalham diretamente no Gabinete do Prefeito.
12. Patrocínios sem Prestação de Contas (22/01/2026 – Proc. 0269991/2025-64) Apura o repasse de dinheiro público para eventos festivos e entidades privadas. O foco é a ausência de relatórios que comprovem onde e como o dinheiro foi realmente gasto.
13. Férias-Prêmio em Dinheiro (22/01/2026 – Proc. 0270012/2025-79) A investigação quer saber se a conversão de férias-prêmio em espécie (pagamento em dinheiro) para servidores seguiu a ordem cronológica e a lei, ou se foi usada de forma discricionária para beneficiar aliados.
14. Advogados de Uberlândia (26/01/2026 – Proc. 0275061/2025-41) Investiga a contratação de um escritório de advocacia de Uberlândia/MG por meio de “inexigibilidade de licitação”. O MP apura se havia necessidade real dessa contratação externa e se houve dano ao erário.
15. O Fantasma do Nepotismo (27/01/2026 – Proc. 0258020/2025-77) Apura a nomeação sistemática de parentes de agentes públicos para cargos de confiança (comissionados), o que fere a Súmula Vinculante nº 13 do STF.
16. Abandono e Insegurança no CESU (27/01/2026 – Proc. 0275092/2025-77) Uma fiscalização sobre a Educação. O MP apura denúncias de precariedade nas condições sanitárias e de segurança do Centro de Ensino Supletivo (CESU) e falhas na oferta da EJA.
17. Alvará Sanitário sob Suspeita (09/02/2026 – Proc. 0280731/2025-17) A investigação mais recente da lista. Apura se a prefeitura concedeu alvará sanitário a um estabelecimento sem que este cumprisse os requisitos de saúde pública.
Análise: A Aceleração do “Pico Jurídico”
O que mais impressiona na análise dos dados não é apenas a quantidade, mas a velocidade. Entre 9 de dezembro de 2025 e 9 de fevereiro de 2026, o Ministério Público instaurou 12 dos 17 procedimentos. Isso significa que, em apenas 60 dias, a Promotoria oficializou mais investigações do que em todo o restante do ano.
Essa concentração indica que o Ministério Público recebeu uma carga pesada de documentos e provas que permitiram a abertura de inquéritos civis de forma encadeada. Para a gestão de Danilo Barbosa Rezende, o ano de 2026 começa com a necessidade de explicar quase todos os setores da administração — da saúde à educação, passando pelo jurídico e pela infraestrutura.
O Impacto na Gestão e as Consequências Jurídicas
A existência de 17 frentes de investigação simultâneas gera um “estado de alerta” em quase todos os setores da administração. Juridicamente, esses Inquéritos Civis e Procedimentos Preparatórios são ferramentas do Ministério Público para proteger o patrimônio público e a moralidade administrativa. Caso as provas confirmem as denúncias, o prefeito poderá enfrentar Ações Civis Públicas por Improbidade Administrativa.
As sanções previstas em lei incluem a perda da função pública, suspensão dos direitos políticos, pagamento de multas e a proibição de contratar com o Poder Público. Além disso, em casos que envolvem danos financeiros — como o pagamento da indenização de R$ 181 mil ou possíveis fraudes em licitações — a Justiça pode determinar o bloqueio de bens para garantir o ressarcimento aos cofres municipais.
O Papel da Câmara e da População
Embora o MP atue na esfera jurídica, o volume recorde de investigações também ecoa no Poder Legislativo. O acompanhamento desses processos pela Câmara Municipal é fundamental para a fiscalização política. Para o cidadão de Três Marias, a transparência desses dados serve como ferramenta de controle social. A Folha Três Marias seguirá acompanhando os desdobramentos de cada um desses 17 processos.
É importante ressaltar que a existência de um Inquérito Civil ou de um Procedimento Preparatório não significa que o investigado seja culpado. Nesta fase, o Ministério Público está reunindo provas e elementos para entender se houve ou não irregularidade. Portanto, as investigações listadas nesta reportagem não devem ser interpretadas como condenação, mas sim como procedimentos oficiais de apuração dos fatos.
O Ministério Público é a instituição encarregada de zelar pelo patrimônio público e pela moralidade administrativa. Caso o cidadão possua informações ou documentos que possam colaborar com qualquer uma das investigações citadas, pode entrar em contato diretamente com a Ouvidoria do MPMG pelo telefone 127 ou através do portal oficial do órgão. O espaço deste portal permanece integralmente aberto para que o Prefeito Danilo Barbosa Rezende ou sua assessoria jurídica enviem posicionamentos oficiais sobre os pontos relatados.

















Nota da Redação: A Folha Três Marias fundamenta esta reportagem exclusivamente em documentos públicos e oficiais emitidos pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). É dever do jornalismo profissional levar esses fatos ao conhecimento da população, garantindo a transparência sobre o uso dos recursos e da estrutura pública. Ressaltamos que todos os citados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.