Após 4 anos, CRM-MG absolve Danilo Rezende
Médico foi denunciado por colegas do Hospital São Francisco após publicações em redes sociais sobre caso de paciente que morreu sem conseguir vaga no SUS. Processo tramitou por mais de três anos. Advogado que o defendeu era ex-procurador do município no governo do hoje prefeito Danilo.

Nota da Redação: A redação da Folha Três Marias teve acesso exclusivo aos autos do processo e aos documentos oficiais do CRM-MG, garantindo a veracidade das informações aqui publicadas, mesmo diante do caráter restrito do processo ético-profissional.
O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) absolveu, em outubro de 2025, o médico Danilo Barbosa Rezende (CRMMG 63.579), residente em Três Marias, de acusações de conduta antiética. O processo, que tramitou por mais de três anos, teve origem em denúncia feita por colegas do Hospital São Francisco — a mesma instituição onde Rezende trabalhou entre 2013 e 2016 — e foi protocolada no CRM em maio de 2020, período em que o médico concorria à Prefeitura de Três Marias.
O caso que originou a denúncia
Em 25 de março de 2020, a paciente Nair Maria de Jesus Pimenta, 75 anos, deu entrada no Hospital São Francisco com necessidade de transferência para uma unidade de maior complexidade. A solicitação foi registrada na Central de Leitos sob o número 116620937.
Segundo a denúncia encaminhada ao CRM — assinada pela Diretora Clínica da instituição à época, Dra. Renata Faria Simone Prado (CRMMG 43725), pelo Diretor Técnico Dr. Bruno Costa Cordeiro e por duas interventoras hospitalares —, o médico Danilo Rezende, que não fazia parte do corpo clínico do hospital à época, teria afirmado publicamente, via WhatsApp e Facebook, que a instituição havia “desaparecido” com a vaga da paciente.
A direção do hospital contestou a afirmação. No documento protocolado no CRM em 8 de maio de 2020, os signatários afirmaram que em nenhum momento a vaga teria sido liberada pela Central de Leitos e que todos os procedimentos adotados durante a internação de Nair Maria foram adequados. A paciente faleceu antes da transferência ser concluída.
A defesa: contexto político e liberdade de expressão
Os advogados de Danilo Rezende — Bruno Rafael Souza Nascimento (OAB-MG 102.428) e Danillo Ramos Lemos (OAB-MG 156.138), do escritório Lemos & Nascimento — apresentaram defesa prévia ao CRM em fevereiro de 2021, com argumentação que situava o caso em um contexto mais amplo.
Na peça, a defesa sustentou que as publicações do médico nas redes sociais foram realizadas durante uma pré-campanha eleitoral marcada por disputa acirrada. Conforme narrado no documento, Rezende havia trabalhado no Hospital São Francisco entre 2013 e 2016, no cargo de Diretor Clínico, tendo sido desligado quando houve mudança na gestão municipal. A defesa apontou que Dra. Renata Prado, denunciante, ocupava justamente o cargo que Rezende exercera antes, e que este cargo seria de indicação política da administração municipal.
A defesa argumentou ainda que as eleições de novembro de 2020 opuseram diretamente Danilo Rezende ao então candidato Adair Divino da Silva — que venceu por uma margem de 788 votos e se tornou prefeito, tornando-se assim o gestor indireto da fundação de saúde que administra o Hospital São Francisco. Segundo os advogados, esse contexto seria indissociável da denúncia.
A decisão do CRM-MG
Em sessão realizada em 24 de outubro de 2025, a câmara de julgamento do CRM-MG decidiu pela absolvição do médico. O acórdão, lavrado em 30 de outubro de 2025 e relatado pelo Cons. Hermann Alexandre V. von Tiesenhausen, fixou a seguinte ementa:
“Comete ilícito ético o médico que durante seu atendimento trata médicos, profissionais, pacientes e familiares sem civilidade ou consideração. Absolvição.”
O acórdão foi aprovado na mesma sessão e assinado pelo Presidente do Conselho, Cons. Ricardo Hernane Lacerda Gonçalves de Oliveira. Em 4 de março de 2026, o CRM-MG expediu ofício informando sobre a decisão e o prazo para recurso.
A ironia do “Defensor Algoz”: O vínculo entre advogado e prefeito
Um elemento crucial que compõe o contexto político do caso é a trajetória do advogado Bruno Rafael Souza Nascimento. Defensor histórico de Danilo Rezende há muitos anos, Bruno foi o responsável por assinar todas as peças de defesa que garantiram a absolvição unânime no CRM-MG.
A relação de confiança levou Bruno ao cargo de Procurador-Geral do Município durante o ano de 2025 na atual gestão de Danilo. No entanto, após ser exonerado no início de 2026, o cenário sofreu uma ruptura drástica. O ex-aliado e advogado da vitória no CRM tornou-se o autor da denúncia que se transformou na CPI que atualmente abala o governo municipal. Ironicamente, a “ficha limpa” de Danilo no Conselho de Medicina hoje deve-se ao trabalho jurídico daquele que fora seu advogado durante muitos anos.
Linha do tempo
| Data | Evento |
| 25/03/2020 | Internação de Nair Maria de Jesus Pimenta no Hospital São Francisco |
| Março/2020 | Publicações de Danilo Rezende nas redes sociais sobre o caso |
| 08/05/2020 | Representação encaminhada ao CRM-MG pela direção do Hospital |
| 15/11/2020 | Eleição municipal em Três Marias |
| 23/02/2021 | Primeira defesa escrita apresentada ao CRM-MG |
| 2022 | Instauração do Processo Ético-Profissional nº 165/2022 |
| 24/10/2025 | Sessão de julgamento e decisão pela absolvição |
| 30/10/2025 | Lavratura do Acórdão |
| 04/03/2026 | Notificação oficial da decisão final |
Fontes: Processo Ético-Profissional nº 165/2022 (CRM-MG); Sindicância nº 18224/2020 e nº 600/2021; Acórdão de 30/10/2025; Ofício SEPRO nº 576/2026 CRM-MG.
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